Yuval Harari e o Futuro do Trabalho

Dorival Donadão

 

Com pouco mais de 40 anos, o professor israelense de História Yuval Noah Harari, desconhecido no meio literário internacional até 5 anos atrás, publicou sequencialmente 3 livros endereçados imediatamente para a lista de best sellers no Brasil e em vários outros países.

“Sapiens – uma breve história da humanidade”, “Homo Deus – uma breve história do amanhã” e o mais recente, “21 lições para o século 21” foram publicados em mais de 50 línguas e representam, hoje, uma síntese formidável dos principais estudos sobre a humanidade, os marcos históricos do passado, os avanços e inquietudes do presente e, principalmente, as projeções e incertezas do futuro.

Um dos capítulos do “21 Lições” aborda o trabalho, com um subtítulo nada tranquilizador: “Quando você crescer, talvez não tenha um emprego”.

Mas, por trás dessa provocação, há uma série de reflexões que nos ajudam a pontuar o grau de consistência das transformações (que certamente já estão em andamento em nossas vidas e no trabalho), e o quanto existe de meras especulações sobre um futuro incerto e, obviamente, não controlável pelo homem.

Um exemplo dessa dicotomia está numa das reflexões do livro: “Os temores que a automação causará desemprego massivo remonta ao século XIX, e até agora nunca se materializaram. Desde o início da Revolução Industrial, para cada emprego perdido para uma máquina pelo menos um novo emprego foi criado, e o padrão de vida médio subiu consideravelmente”.

Porém, atenção, o texto continua: “Mas há boas razões para pensar que desta vez é diferente, e que o aprendizado da máquina será um fator real que mudará o jogo”.

A Inteligência Artificial e a robótica, mesmo evoluindo exponencialmente, irão deixar espaços onde os humanos terão relevância pela conjugação de suas habilidades motoras e emocionais, em cenários de grande imprevisibilidade. Um exemplo sempre citado é a importância dos cuidados de enfermos no campo da medicina, das crianças e idosos no dia a dia. Por um bom tempo, presume-se que a sensibilidade humana será requerida para tratar de situações dolorosas, de pânico ou de agressividade em clínicas médicas ou hospitais.

Da mesma maneira, os trabalhos ligados às artes e à criatividade humana parecem ter alguma longevidade, embora também sejam impactadas no longo prazo, à medida em que os algoritmos alcançarem a primazia técnica de criação.

E no mundo executivo-empresarial, o que poderá acontecer? Claro que o primeiro e mais significativo impacto da chamada transformação digital está reconfigurando processos e métodos de trabalho.

Novos aplicativos estão simplificando, ordenando e renovando as práticas de gestão e administração. Sintomaticamente, a Quarta Revolução Industrial foi o tema-âncora do Fórum Econômico Mundial realizado em janeiro deste ano, em Davos, na Suíça. Governantes, empresários, executivos, jornalistas e pensadores de todo o Mundo se reuniram para alinhar a leitura do contexto global.

Curiosamente, as expectativas desses diferentes públicos estão em sintonia com as premissas citadas por Yuval Harari. Quando menciona as principais habilidades que a educação do século 21 deveria adotar, ele cita a “habilidade para lidar com as mudanças, aprender coisas novas e preservar seu equilíbrio mental em situações não-familiares”.

Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial e autor do livro “A Quarta Revolução Industrial”, vai no mesmo caminho quando eleva o raciocínio para as questões globais: “Novas formas de cooperação e governança, a responsabilidade coletiva para a criação do futuro, adaptação e inventividade”. Estas são as demandas para empresas, pessoas e profissionais antenados com a transformação.

Com um supercomputador no seu bolso, a casa devidamente conectada e inteligente, as decisões baseadas em “big data”, os carros sem motoristas e um sem-número de evoluções tecnológicas, o ser humano deste século terá que reaprender a conviver consigo próprio, com o outro, com novos padrões de desempenho profissional e com os conflitos naturais da mudança.

Nessa dinâmica, nada supera um atributo sempre presente nos ciclos de maturidade, mas ainda mais forte nesses novos tempos: o autoconhecimento.

Concluindo com Yuval Harari: “Em meados do século XXI, mudanças aceleradas e a vida mais longa tornarão o modelo tradicional obsoleto. A vida se esgarçará, e haverá cada vez menos continuidade entre os diferentes períodos de vida. Quem sou eu? Será uma pergunta mais urgente e complicada do que jamais foi”.