Baixa produtividade: a saída será o futuro?

Já completamos mais de três decênios com recorrentes índices de baixa produtividade e a má notícia insiste em permanecer no contexto econômico brasileiro.

O Banco Mundial anunciou na segunda-feira, 28/10, em evento realizado em São Paulo, a posição brasileira no Índice de Capital Humano, um importante termômetro do crescimento sustentável.

Na avaliação do organismo internacional, uma criança nascida no Brasil chega à vida adulta com 56% da produtividade do que poderia ter, se tivesse acesso à condições adequadas de educação e saúde.

Embora essa performance esteja na média mundial, o estranhamento se deve à relativa melhoria das condições macro econômicas , sem que as melhorias tenham reflexos no chamado Índice de Pobreza Educacional.

No início de 2018, o Insper, importante centro universitário das áreas de economia e finanças, divulgou um estudo com o título “O Brasil hoje”, pontuando os Ativos Estratégicos e as Debilidades do País.

Mesmo após quase 2 anos, nossos ativos permanecem atuais, marcantes e diferenciados:

  • Ampla disponibilidade de recursos naturais: terras, água, florestas, riquezas minerais e energéticas, biodiversidade, belezas naturais (várias ainda inexploradas);
  • Mercado nacional de grande escala;
  • Alguns setores globalmente competitivos: agronegócio, mineração, aeronáutica, alimentos, papel e celulose;
  • Solidez e elevado desempenho do setor financeiro;
  • Fronteiras “em paz”;
  • Sistema institucional, Estado de Direito, Democracia, liberdade de imprensa.

O outro lado da moeda, entretanto, é igualmente extenso e relevante. Vejam a seguir um resumo das nossas debilidades, segundo o Insper:

  • Produtividade média estagnada (como já mencionado, este índice é nossa pedra no sapato há algumas décadas);
  • Competitividade persistentemente baixa (no geral dos setores econômicos, com as exceções citadas). Custo Brasil, carga tributária, burocracia, excesso de regulação, etc.;
  • Passivos ambientais, baixo nível de saneamento, poluição nas cidades e nos rios;
  • Sistema político e Estado corrompidos;
  • Sociedade imediatista, pró-estado, sem poupança nem visão de longo prazo;
  • Baixo nível de escolaridade e de capacitação. Analfabetismo persistente.

O resumo dessa reflexão pode ganhar tons ainda mais preocupantes. Basta adicionar o desafio da Revolução Digital e da Transformação Cultural que os países e as organizações estão encarando nesta segunda década do século. Os avanços tecnológicos criando patamares cada vez mais elevados de inovação, precisão e automação, entronando a Inteligência Artificial a posições jamais vistas.

A Ásia ganhando protagonismo econômico, o fenômeno China criando uma nova geopolítica, vários países flertando com guinadas para a extrema direita e o conservadorismo fora de época.

E , por fim, o Brasil vivendo uma surpresa ideológica e uma gestão imprevisível de problemas cotidianos que parecem ressuscitar Chacrinha e seu mote “vim para confundir e não explicar”.

Não é nada alentador, mas a verdade é que a questão da produtividade que começa esse texto parece tão insignificante diante do quadro geral, que só nos resta voltar à lista dos nossos ativos, fazer a nossa parte para que tenhamos, com o tempo, mais musculatura para enfrentar nossas debilidades. A construção do futuro depende de como domamos as dificuldades do tempo presente.

Como disse Woody Allen: “Me interessa o futuro; é onde vou passar o resto da minha vida”.