As Frases Atemporais

O humor é uma arte que atravessa (e suaviza) os tempos

Em épocas de asperezas, conflitos e desmandos de poder, é bom lembrar de algumas figuras que destoam das circunstâncias. São os humoristas, gente de alma e cabeça abertas para provocar aquela sensação de que nem tudo está perdido. Millôr Fernandes já dizia: “Nem tudo está perdido… Muitas coisas nem foram encontradas.”

Sobre essas personagens é ótimo ler a recente publicação Entre sem bater – a vida de Aparício Torelly, o Barão de Itararé, de Claudio Figueiredo, do jornal A Manhã. Gaúcho de Rio Grande, mas sempre conhecido pelas boemias cariocas, o Barão de Itararé costumava fazer das durezas da vida algumas tiradas de humor. O título do livro é um bom exemplo. Depois de levar uns cascudos da polícia de Getúlio Vargas por alguma piada de mau gosto (na visão dos poderosos), o Barão saiu da sua sala no jornal e voltou logo depois com uma placa que colocou na porta: “Entre sem bater”. Morto em 1971, aos 76 anos, o Barão, que estava longe de ter alguma posição na nobreza, criou uma frase ajustadíssima aos tempos de Lava-Jato: “Todo homem que se vende, recebe mais do que merece”. Se ainda estivesse vivo, certamente teria um enorme celeiro de oportunidades para novos chistes. Algumas das tiradas impagáveis do grande Barão:

“A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.”

“Quem inventou o trabalho, não tinha o que fazer.”

“De onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo.”

“Quem empresta, adeus.”

“O Banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente, se a gente apresentar provas suficientes de que não precisamos de dinheiro.”

“Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato!”

Com o mesmo espírito falsamente debochado e inconsequente, Stanislaw Ponte Preta (o “Lalau”) é outro expoente do humor elegante (e muitas vezes ácido). Alguns exemplos:

“Imbecil não tem tédio.”

“A prosperidade de alguns homens públicos no Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento”.

“Capitalismo é a exploração do homem pelo homem. Socialismo é o contrário.”

“Consciência é como vesícula. A gente só se preocupa com ela quando dói.”

Relembrando Millôr Fernandes, talvez o mais erudito dos cronistas do cotidiano no Brasil:

“Com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos 40 anos de vida, aprender a ficar calado.”

“Quem sabe tudo, é porque anda muito mal informado.”

“Viver é desenhar sem borracha.”

As coincidências entre essas frases e as que gostaríamos de ter criado nestes tempos não são meras coincidências.   É o espírito do tempo que inspira e nutre os humoristas que fazem história. Millôr Fernandes, Stanislaw Ponte Preta, Barão de Itararé fazem parte desse plantel de pensadores a serviço do humor engajado. Temos muito a aprender com eles.