A Maldição do Conhecimento

“Eu quase nada sei…… Mas desconfio de muita coisa……”
Guimarães Rosa

O autor da obra-prima Grande Sertão: Veredas, escrito em 1956, sabia manter a simplicidade como jeito de ser, ao mesmo tempo em que buscava o conhecimento como um princípio de vida.

Escritor, diplomata, médico e membro da Academia Brasileira de Letras, Guimarães Rosa chegou a ser indicado ao prêmio Nobel de literatura, no mesmo ano (1967) em que faleceu aos 59 anos.

Decorridos, agora, mais de 50 anos, seu estilo marcante de criação literária faz dele um dos maiores autores do século passado.

O que esse relato nos ensina é que o conhecimento superior (das possibilidades criativas da escrita, no caso de Guimarães Rosa) não implica, necessariamente, em conhecimento revestido de soberba.

Não é um aprendizado de fácil aquisição. Muitas vezes nos pegamos inadvertidamente na fogueira das vaidades, desfilando pretensões de sabedoria e de arrogância. Preconceitos descabidos, autoestima muitos níveis acima da competência, inteligência “de almanaque”…… quantas armadilhas nesse caminho de autoafirmação e de falso cultivo do saber…..

E o pior é que muitas vezes sequer percebemos esse risco. O cotidiano, na verdade, tem muitos exemplos da chamada “maldição do conhecimento”. Manuais técnicos, por exemplo, são repletos de textos soberbos e incompreensíveis, que mais confundem que explicam. A impressão é que esses autores técnicos se enfastiam em precisar explicar ao ser humano comum o que eles consideram o “óbvio ululante”, como diria Nelson Rodrigues. E os relatórios médicos que causam angústia em quem os lê, na esperança de decifrar os herméticos ensinamentos doutorais?

Os ares esnobes e empolados estão por toda parte…… Felizmente, a própria vida vai, com tempo e às duras penas, nos ensinando a buscar mais simplicidade e humildade……

Afinal, voltando ao grande mestre Guimarães Rosa, “viver é uma questão de rasgar-se e remendar-se” ……