A Cultura Japonesa e a Robotização

Quando o mistério e a sensibilidade encontram um ponto de equilíbrio

Uma série de mangá, as famosas histórias em quadrinhos japonesas, escrita em 1989, e um filme de animação rodado em 1995 e dirigido pelo mestre Mamoru Oshii, resultaram no ótimo A vigilante do amanhã – Ghost in the shell.

Recém-lançado no circuito brasileiro, e trazendo a dupla Scarlett Johansson e Juliette Binoche, A vigilante do amanhã é vibrante e tecnocientífico, unindo movimento, ritmo, ficção e emoção. Ser humano e máquina convivendo num mesmo personagem, Scarlett (linda, como sempre) assume traços orientais e transmite a inquietação existencial de quem não sabe se é máquina ou ser humano, robô ou gente. Se em 1995, na primeira versão do filme, essa questão já era perturbadora, imaginem agora em pleno século XXI, quando o avanço da robotização é um fato e não apenas uma digressão fantasiosa. A verdade inegável é que a rápida expansão da automação e de seus desdobramentos já traz um novo termo para o nosso dicionário de inquietudes no mundo do trabalho: o desemprego tecnológico.

Trocando em miúdos, o fato novo é que as pessoas podem estar crescentemente à margem de uma revolução galopante e perversa que, de um lado, transforma o cenário de ocupações e profissões e, de outro lado, ainda não provê talentos qualificados para ingressar nessas novas ocupações. No meio desse caminho, a recessão amplifica as dificuldades para quem não acompanhou o ritmo das mudanças. Não há, portanto, como desvincular a trama do filme A vigilante do amanhã com a sensação aflitiva que esse tema traz para as projeções contemporâneas do trabalho.

O contexto híbrido que permeia o filme provoca reflexões sobre o casamento entre o progresso científico e a longevidade ampliada do ser humano, as demandas de produtividade do trabalho que pedem mais razão e menos emoção, a pressão contínua de um futuro incerto e não sabido. Tudo isso compõe, enfim, um quadro que requer equilíbrio de análise e ponderação sobre as consequências de um futuro que já chegou anunciando em trombetas seus desafios e suas regras.

Em síntese, esse filme traz a antecipação de um grande ponto de interrogação: estamos, verdadeiramente, no limiar entre o mistério (a consequência inevitável da crescente robotização) e a sensibilidade (o eterno e insubstituível poder diferenciado dos humanos diante das máquinas)?

Qual será o próximo capítulo? Seremos, afinal, biônicos, personagens desse hibridismo, meio ser humano e meio máquina? Seremos capazes de nos recompor a tempo de entender as exigências dessa transformação de parâmetros, ou a onda futurista criará um novo tipo humano, tecnicista e multifacetado?

Ou é melhor pensar que A vigilante do amanhã não passa de uma ficção requentada e inocente? Cá entre nós, é melhor acreditar nessa hipótese, certamente mais pueril e menos alarmante.